Esses dias, fui tomada por um desconcerto esquisito. Uma prima que praticamente nunca tinha me visto, veio à Fortaleza e resolveu passar lá em casa, pra fazer uma visita a sua bisavó. Até aí, não há nada de esquisito. No entanto, ela resolveu falar comigo, e, depois de dizer oi, a primeira coisa que saiu da boca dela foi: " Tu faz o que?". Imediatamente, fiquei profundamente incomodada e me limitei a responder de forma desinteressante, dizendo, provavelmente, o que menos lhe interessava. Pois a tradução que eu dei para tal pegunta foi: "Quais atividades que você realiza pra ganhar dinheiro?". Então, tal pergunta possuía em si uma audácia. que a minha voz não queria sair, para proferir a resposta, mas retruquei, dizendo que fazia Letras. Não satisfeita, ela perguntou "onde?" e eu, ainda educada, respondi e voltei ao que estava fazendo.
No dia seguinte, fui dizer à minha avó sobre tal desconforto e ela falou que nada havia em dizer quem eu era, bastava falar onde e como eu trabalho e estudo. Mas pensei que nada disso dizia quem eu sou e que mais parecia que eu estava dando meu currículo, em uma entrevista de emprego.
O mais interessante, é que, antes, isso ocorria, mas eu não me incomodava. Mas, agora, incomodou. Não quero ser o meu cargo, nem o meu salário. Não quero que a importância das pessoas na minha vida seja medida pelo tamanho da conta bancária. Não conheço as pessoas perguntando se ganham e como ganham dinheiro. É apenas isso que as pessoas tem pra oferecer? Espero que não...Espero também que conhecer pessoas vá além de conhecer seus salários. Espero que eu não seja a única.
Quero conhecer idéias e ideais, conhecer almas, dividir questões inquietantes... Eu poderia ter dado todo o meu currículo profissional, e acadêmico também,mas vou e sou além e mais complexa do que isso.
As pessoas que se resumem ao quanto e como ganham dinheiro talvez sejam rasas e simples demais para que provoquem em mim qualquer resposta. Pessoas assim não me interessam. Quero, e penso que todos devam querer, a humanidade e a complexidade que há em cada ser e assim descobrí-lo, conhecê-lo. Não essa obviedade banal, cansativa e entediante da aparêcia e da lógica de mercado.
À todos, espero que sejam profundos e complexos e que fujam de tamanha pequenez e da lógica das relações impostas pelo sistema, pois, segundo as idéias marxistas, o capitalismo adentrou as relações humanas, transformando-as em relações de troca, superficiais, em que é necessário valorizar o ter e o parecer, em detrimento do ser!
Talvez, este seja um papo cansativo, talvez não, talvez seja por isso que fiquei inquieta com a pergunta "inocente", porque não quero estar mais imersa no sistema do que já estou, quero preservar a humanidade em mim e nas minhas relações, quero me relacionar com seres e não com meros objetos e coisas representativas daquilo que instituíram como "ser", que acaba sendo derivado do que chamam de "poder".

Ow, tá pegando o jeito, hein?!
ResponderExcluirParabéns!
Arrasou, amiga!!
ResponderExcluir:)
Está pegando o jeito mesmo!
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!!!! Obrigada!!!! Adooooroooo!!!
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